Borges conta ter lhe interrogado, certa vez, quanto a essa perda frequente de seus manuscritos: ‘Macedonio, como podes fazer isso?’ Sabia que abandonara, por exemplo, os rascunhos de um longo romance ou de um tratado de metafísica. Mas Macedonio respondia: ‘Acreditas que eu tenha tantas ideias que possa perder algumas delas?’ (BORGES, 1998, p. 194).
O momento cultural, social e tecnológico em que está mergulhado o autor da obra “Museu do Romance de Eterna”, nascido em 1874, correspondente ao final do século XIX e início do XX, é o de insatisfação e consequente ruptura dos artistas com a estética estabelecida no passado, a partir de propostas inovadoras, como ocorreu, por exemplo, na pintura, com os movimentos Cubista, ao desconstruir a perspectiva e fragmentar os objetos em formas geométricas, e Surrealista, ao representar as emoções por meio de formas abstratas e uso de técnicas espontâneas, entre outros, fato que no Brasil, foi marcado pelo movimento Modernista.
A insatisfação existente com a tradição fez emergir novas propostas também na música e na literatura, aqui se destacando autores como James Joyce, Bertolt Brecht e Marcel Proust, que vieram para ocupar, de algum modo, o vazio presente, expressado principalmente na Europa. Nessa atmosfera de “morte acadêmica”, de cansaço com a imobilidade artística, um autor vivia às voltas com a ideia de preencher esse vácuo, essa ausência, em terras vizinhas, em Buenos Aires, na Argentina, seu nome, Macedonio Fernández, cuja proposta era escrever um romance com suporte na doutrina artística.
Para concretizar tal objetivo, como ele mesmo afirma no capítulo doze do livro “Museu do Romance de Eterna”, procurou a companhia de grandes pensadores, entre eles William James, Hegel e Fechner, em especial o livro O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer, dada a visão platônica do filósofo quanto à realidade e a vontade humana; a primeira, interpretada como mera ilusão e a segunda, como um desejo nunca satisfeito, impressão revigorada, à época, pelo sentimento de ambiguidade em que se vivia, um mundo que, ao mesmo tempo em que encantava, deprimia.
Em o “Museu do Romance de Eterna”, ao sugerir uma obra com suporte na doutrina artística, portanto, com base nas teorias, princípios e crenças que orientam a criação, indiferente ao tipo de aplauso que receberia de leitores e críticos, pelo desafio de algo inovador e desafiador, o autor recorre a um instrumento comum em teatro antigo, os Prólogos, permitindo um conhecimento prévio, não apenas de suas intenções estruturais, da definição de espaço e personagens, mas também das emoções vivenciadas por ele durante o processo criativo, envolvendo o leitor não como um espectador passivo, mas integrando-o à obra como personagem.
Ousadia? Com certeza! Mas está claro para Macedonio Fernandez que para alcançar algo artístico, inovador, que rompesse com a tradição, deveria utilizar-se da impossibilidade das situações e dos personagens como critério, algo distante das ocorrências da vida, de qualquer realismo. O propósito seria uma obra que contivesse toda a dor humana, uma narrativa mais de acontecimentos, um romance sem adoecimentos ou morte, onde não há ser vivo, sem que irmãos se desejem sensualmente, sem a ventura do milionário casar-se com a operária, sem poderes, nem glórias, apenas pela certeza da Paixão, o que, intui, exigirá de si muita originalidade e inventividade.
Diante da opção romântica do suicídio para transformar o medíocre em escritor glorioso, Macedonio Fernández escolheu o caminho de corrigir e corrigir o material alcançado, ao longo de décadas, exercício que descobriu ter grande poder de afastar ideações suicidárias, além de tê-lo feito compreender o livro prometido que, mesmo fracassada a empreitada de um romance genuíno – ou pseudo-romance, com afirma, ironicamente – , a mensagem que deixará aos críticos é de um legado para aguardarem a Perfeição, o que não é impossível, pois já ocorrera com outro autores, como Kafka e Superville.
Não há por parte do criador uma compreensão verdadeira do que virá, da estética a ser aplicada, e não há plano. Cada situação vai sendo desenvolvida no momento de seu aparecimento e movimento, o ato de escrever como errância nômade e apaixonada, a arte pela arte, cujo alvo será o leitor salteado, por serem completos e lerem tudo, e que não tem alternativa a não ser a leitura seguida, pois a obra salteia antes, transtorno pelo qual pede desculpas no início do romance. O desejo é ganhar o leitor como personagem que experimente um estado de não existir, que compreenderá o “Eu não existo”, de onde deveria ter partido a metafísica de Descartes.
O início de tudo foi o autor conhecer Eterna, fruto de um sonho, uma miragem, logo ao acordar. Hesitou entre ela, a arte e o mistério. Mas foi essa personagem, definida como “a minha”, capaz de fixar o tempo, compensar a morte e mudar o passado dos outros, mas sempre dolorosa de um passado pessoal do qual não pode se livrar, que o levou a acreditar na empreitada, uma “entidade” que representa o real de seu espírito, onde encontrou o impulso máximo de piedade e prontidão em relação ao outro, uma musa que o inspira, e a quem dedica o livro: “A ti existas ou não dedico estas páginas; és o real de meu espírito”. Percebeu sublime presteza nela, e sequer viu seu rosto, fruto de improvisação e oralidade, cuja finalidade será a existência de algo ético, de ser outro ainda no fazer tudo por um outro, sem Paixão que não seja pela arte, sem amar a si mesma, que a finalidade da arte é o fim da vida.
O espaço para o desenvolvimento da trama, denominado Lar da não existência, é o local de espera da Belamorte, a morte que concebe toda a beleza da realidade, o que só é compreensível por meio da não existência e do amor idealizado. O autor anseia um romance que explore a ideia de a beleza com a arte e a realidade estarem intimamente ligadas à morte, ao amor, à aceitação da imperfeição e da não existência, não a morte como um fim, mas como parte essencial da criação e da beleza: não há morte para si, nem para quem ama; nem há beleza que não proceda a morte; nem morte que não proceda do amor.
Na busca de uma obra literária genuína e artística, autor e Eterna não devem se amar, mas devem estar mergulhados na Paixão pela arte. A estratégia é o ato de escrever a partir de indagações e espera de acontecimentos, o romance em processo de construção, os personagens sendo escolhidos e preparados para seus papéis, alguns rejeitados, outros incluídos por imposição, o autor sendo o imaginador, a não morte, em trabalho artístico contra a estabilidade do Eu, buscando na própria irracionalidade e sua identidade na própria humorística.
Em Eterna, o explorado é a descentração, não de um ser vivente em outro, como seria de acontecer no realismo, mas a de ser a imagem, de ser e parecer não real e vice-versa, nela o poder de mudar o passado dos outros, mas não o próprio. Encontraremos no romance com De-um-Amor, a própria suspensão da identidade, com Doce-Pessoa e sua expectativa de ser. Os prólogos vão mostrando o quanto é sutil tirar o eu, desacomodar interiores e identidades, efeito que justificaria a existência da Literatura, e que só a Belarte pode elaborar. Serão raros, afirma o autor, em um dos prólogos, momentos de estabilidade ou unidade de alguém na obra a ser produzida.
A proposta de Macedônio Fernández é pela liberação da noção de morte, de um destino não ligado ao corpo, da presença total da amada a qualquer presente do tempo, ao próprio presente em que está o desejo, em um estado de sensibilidade e não material. Pede consentimento para apresentar uma amostra das dificultosas tentativas confusas e imortalizastes do Eu, crê avançar no ponto de vista teórico no processo de poder pensar escrevendo. Preconiza uma metafísica não discursiva, a qual domina, e que se dá na arte, a possibilidade de avançar teoricamente nesse processo de poder pensar escrevendo.
Na construção do romance há engenhocas de inverossimilhança e desmentido da realidade no apresentado e fatos que nunca ocorreram. Também doutrinou os personagens no exercício da arte, tornou-os estudiosos da estética e leitores de prólogos. Se o resultado for ruim? Fez o que o tocava. Todos os personagens meio existem, o autor toma da vida metade ou mais, há neles uma agitação no ser de personagem, como alguns humanos que usados como tal sentem um incomodo de ser vida. Enfim, ser personagem é sonhar ser real, é a mágica deles, o que nos possui e encanta, diferentemente da arte realista, que não é Belarte, quando os personagens, por se acharem cópias, não sonham ser.
O autor declara sua opção criativa pelo uso da fantasia – fantasismo. Cita o personagem Viajante que na própria vida talvez jamais tenha existido, o autor não acredita nos Viajantes, seus sentimentos são a vontade de esquecer e de ser esquecido. Desejo de imagem morta na mente dos outros, a morte no esquecimento é a que nos leva ao erro de acreditar na morte pessoal. Crença fraquíssima, afirma, por isso fazemos mais para não sermos esquecidos que para não morrer. Por que erra e anda o Viajante? Vive ali na frente, não sai de casa a não ser na hora do fim do capítulo do romance. Extinguidor da alucinação que chegue a ameaçar de realismo o relato.
Com certa dose de humor o prólogo ao “Nunca Visto” é uma introdução inovadora e única, que se destaca por sua originalidade e abordagem não convencional. O autor propõe um gênero literário nunca existente, algo que ele chama de “nunca havido”, nunca estreado em Buenos Aires, única cidade que se presta a uma volta ao mundo, portanto, ideal para seu empreendimento, uma obra que preencherá a lacuna deixada pela escassez de obras legíveis, por verdadeira arte a ser criada.
A humanidade estará atenta ao “não visto”, ao livro a ser escrito e que será acontecimento nas ruas e nos bares, romance que será futurista até que se escreva, que será aplaudido, fruto de um autor que nasceu por ter pensado e a quem não há sentido de urgência, consequência da facilidade atual de se escrever que o levou a suprimir a necessidade de leitores. Com os prólogos privilegia o leitor, a essência de uma longa experiência em arte, compilada durante sua construção: “A vida é compreendida sem cópias, efetividade de autor é só Invenção”.
Com os prólogos espera fazer obra tão garantida que personagens, acontecimentos e piadas comprovem toda a sua seriedade em ensaios especiais, ensaio anterior ao leitor. Desse modo privilegia, como já dito, o leitor, com o conhecimento de todo o livro, dando a essência de uma longa experiência em arte, sem cópias, mas fruto de Invenção, efetividade real de autoria.
Convida o leitor a embarcar em uma experiência literária única e inovadora: preparem-se leitores para uma obra em gestação, um estado de não existência, com personagens que vivem apenas alguns minutos, e que pela expectativa criada será saudada, nunca esquecida. Trata-se de um sonho inteiro, sem vida, muito pessoal, que renunciou a tudo para executar uma teoria da arte do Romance, por avançar por territórios inexplorados no gênero. A obra chega em justo tempo, um romance impossível que contém só impossíveis, para sê-lo Arte. Para que o realismo?
Desse modo, personagens, fruto do fantasismo, desfilam ao longo de um romance-modelo, graças ao aproveitamento de uma desordem curiosa na circulação entre os literatos do personagem Juan Pasamontes (escritor fictício que teria escrito o romance dentro do romance), e que figura há dois ou três mil anos, desde literaturas gregas e romanas, em todo romance de verdadeira sensação e modernidade, que não se assemelhe a outro em nada, tampouco em ter Pasamontes (personagem com recurso literário para questionar a autoria e a relação entre o autor, a obra e o leitor).
Enfim, o desejo de Macedonio Fernández é que o romance contenha o sonhado em 1928, ao deparar-se, ao acordar, com uma mulher cordial, conhecida, mas cujo rosto não conseguiu evocar. Tudo que escreveu colocou como figurações ao despertar, não inteiramente sem sonhos, estado que deveríamos reservar diante da dor e pressentimentos de paixão, o que carrega de certa divindade ou mística o relatado, como se ocorressem à meia-luz, meia-ação, meia-vigília, pois fora da paixão prevalece o sofrimento: o sonho lembrado é uma fórmula do estado de meia inadmissão de toda a certeza e efetividade.
Alerta, às portas do romance, que o verdadeiro artista romancista deve se livrar do leitor de desenlace, aquele que conhece o relato e final antecipadamente. A tática no romance são personagens apenas entrevistos, mas o que se sabe deles ficará gravado pela irritação do leitor que oscilará entre amá-los ou sentir-se insatisfeitos por incompleto. Que o leitor não se preocupe com as imperfeições, deverá ler sem incômodo com o truncado ou obscuro.
Será um romance assim… Mas aqui sou eu quem deve parar, já antecipei demais sobre o romance porvir, o que está dentro do próprio romance, mergulhem nos mistérios da obra, nos personagens inocentes e carinhosos como Doce-Pessoa e Quiçá-Gênio, com Federico, o garoto de longo bastão, futuro personagem, que será recebido à força, que montou uma fábrica de ruídos, a inexistente com presença De-um-Amor, mas também aprecie a meditação filosófica e poética do autor sobre a natureza da existência, do amor e da morte, sintam o cheiro da mala de couro do Viajante em todos os capítulos.
Ao leitor um romance que, apesar de não ser vinho encorpado e doce, contém três caminhos de dispersão: saída para manobra dos personagens, a conquista de Buenos Aires e a separação final. Ao leitor salteado, que pratica o entreler, e que será também personagem do romance, com certeza, estará diante de uma obra surpreendente, que não se pode esquecer, um mergulho em sua singular teoria da Arte do Romance – que merece a atenção de futuros escritores – criada por um cigano errante em viagem no gênero romance enquanto arte, a construir um sonho muito pessoal; aos outros, leitores, que retornem a Balzac, à imitação da vida.
Carlos Pessoa Rosa é neto de portugueses e escravos, xamã com registro em órgão de classe (seja lá o que significa essa palavra), arrisca na prosa e na poesia, tem algumas publicações fruto de premiações, cujo valor pode ser discutido, como A cor e a textura de uma folha de papel em branco, contos, e Sabenças, novela, ambos publicados na plataforma Amazon, um infantil em Buenos Aires, pequeño editor, Una Casa Bien Abierta, mas há outros livros nunca premiados também.